Anos e anos em torno de manter o que o corpo exige. Horas e horas de fazeres necessários, para manter um padrão de qualidade e dignidade corpórea.
Não sei a partir de quando aprendi a "meditar" e na maioria das vezes "remoer" durante os afazeres, mas aconteceu em um dado momento e desde então aproveito as tarefas para "meditar" sobre as coisas que vejo, sinto, temo, desejo, minhas frustrações, amores, encontros e desencontros, tristezas e questão pendentes de solução e encaminhamentos.
Agente cria cada vício, por fim acabei me dando conta que estava congelando minha mente a pensar em mim, somente, quanto estava limpando, cozinhando...
Me sinto de espada na mão para defender o meu tempo - lutando contra as necessidades corpóreas.
Percebo também, que no meu meditar e remoer entre tarefas, nunca me permiti voar para o sonho, me imaginar fazendo coisas prazerosas que talvez nunca se realizem, apenas me deixar transitar pelo irreal já que minha mente pode tudo. Que louco isso, mas agora, sou uma dançarina num palco majestoso : - a música é um tango de Piazzolla e o meu par é perfeito.
Ao menos me permitir a imaginar essas situações que são capazes de me tirar do limite das inviabilidades concretas da realidade.
Porque será? Não sei se minha mente está tão presa ao meu corpo com suas necessidades, que tem medo de viver fora dele.
Alguma coisa diferente ocorre, pois até então era meu corpo que nos momentos de inquietude queria se transportar para viver a luxúria, a fartura e as situações de contos de fadas onde tudo acaba bem. Agora não, é a minha mente que quer sair e ficar apenas com suas próprias possibilidades. Não sei onde ela me levaria pois, até agora, o corpo é que ditava imperiosamente suas necessidades.
Quando escrevo, percebo que minha mente se empodera.
Agora me joga nesse teatro de palco majestoso onde eu dançarina me embriago no prazer dos movimentos ritmados do tango com o meu parceiro perfeito; posso ser também o maestro elegante e requintado dessa orquestra sonora ou talvez o violonista emocionado com seus próprios acordes. Vários arquétipos me são permitidos desfrutar e a sensação é de muito, muito prazer.
Ultimamente tenho me ouriçado muito com o tempo que gasto para atender necessidades e porque elas ficam cada vez mais complexas, cada vez mais acabam levando o meu tempo embora.
Me incomoda ter que gastar tanto com comida ( tempo atrás de alimento, dinheiro para comprar, tempo para preparar, tempo para limpar tudo que sujo para cozinhar). Essa necessidade joga na minha cara, todos os dias, o quanto os humanos/corpos são frágeis e presos em si mesmos ( Imediatamente vêm o Chavão - Temos que dar Graças por termos a casa para limpar, a comida para comer e de onde tirar o dinheiro para pagar isso).
Estou enfartada com essas necessidades. Sei que isso não têm jeito, por outro lado a vida em família e até mesmo entre os amigos, poderia amenizar isso através do revezamento, mas isso quase sempre não dá certo.
E as hierarquias que elas impõem : Comer, lugar para morar e dormir, higiene pessoal, vestir , água , luz, passagem de ônibus, etc... e as modernidades sem as quais tu hoje não é gente : celular, Internet .
O meu enfarte mental, se dá porque, ultimamente, tem ocorrido com freqüencia, de minha mente querer estar em 1º lugar no fracionamento diário do meu tempo.
Quero começar a sentir e agir diferente, comigo mesma. As tantas primaveras vividas hão de servir para me ajudar a buscar uma nova maneira de encarar a vida com suas coisas necessárias.
Quero dizer a minha mente que ela estará a partir de então em primeiro lugar, o que te faz bem o que te rejuvenesce e o que de estimula ir além. Ilimitada és e te deixarei voar pois tu com tua ilimitada condição não criarás necessidades apenas experimentos....
Quero sair da prisão do botão automático que aciono para satisfazer o corpóreo e dar vez a ti .
